Memórias…

Uma das coisas sobre a qual mais falamos nos nossos encontros é “construir memórias”. Tudo o que é vivido pelas crianças vai formando sua memória, e mesmo aquilo que a gente costuma achar sem importância vai ficando guardado no inconsciente delas.

Um dia a Gladys perguntou “O que faz você ser você mesmo?” (ou algo do tipo).
Nós somos as nossas memórias, aquilo que vivemos e sentimos um dia nos faz ser o que somos hoje.

Isso é muito recorrente nas nossas conversas pois o trabalho de formiguinhas que temos na educação dos nossos filhos, as atitudes que escolhemos tomar, as conversas, as mesas que fazemos, vão influenciar muito quem eles serão e as atitudes que eles terão no futuro. E como ter consciência disso é importante!

Agora para completar coloco abaixo um texto muito, muito lindo e emocionante sobre memórias da Emy Kuramoto:

Era uma boneca japonesa de rosto comprido e silhueta esguia. Vestia kimono de crepe e rodopiava dentro de uma redoma de plástico de base amarelo-ovo, ao som de uma musiquinha que embalava meus primeiros sonos. Era um tesouro a minha caixinha de música! Os acordes ainda ressoam em mim, era o som da minha primeira infância! Na sua base, havia uma gavetinha, forrada em veludo vermelho, onde eu guardava um anel de pedrinha azul que mamãe comprou numa quermesse junina, depois de comermos juntas um cachorro-quente, chupando os dedos.

Minhas memórias mais remotas me trazem aromas, gostos e sons que me escapam fugidios, embora estejam nítidos e perenes em algum lugar, mais próximo ao coração do que à cabeça, por certo. Fui uma menina criada nos fundos do trabalho dos meus pais. Papai tinha uma loja de roupas infantis; mamãe, um salão de beleza. A mim era reservado um quartinho nos fundos do velho salão de mamãe. O piso era de taco, a janela era tipo guilhotina, tal qual as fazendas antigas. Havia ainda uma mesinha e cadeiras de fórmica, um radinho portátil, uma televisão em preto e branco, muitos brinquedos, livrinhos, canetinhas e lápis de cor. Era lá o meu mundinho! Nas falhas das paredes, de tinta gasta e descascada, eu enxergava baleias cachalotes gordas e pimponas. Apressava-me a desenhar olhinhos nelas para que não desvanecessem, como acontecia com as nuvens do céu. Desde sempre, eu tinha urgência de lembrar.

Quando a freguesia escasseava, meus pais vinham me ver, fazer um lanchinho, pôr uma musiquinha para tocar, conversar… Como era gostoso o milho que papai vinha debulhar nos intervalos que se abriam no meio da tarde! Eu, de janelinha na boca, saboreava, de colher, cada grãozinho que ele juntava zelosamente naquela xicrinha de chá. Papai também era exímio descascador de frutas! Depelava laranjas, maçãs, uvas com a destreza de quem executa trabalho importante. Ele enfileirava os pedaços de fruta para que eu comesse tudinho. Vai ver foi daí desse carinho que veio meu gosto por elas até hoje.

Mamãe também vinha ter comigo, no intervalo de um cabelo e outro, cantarolar alguma música japonesa das várias fitas cassete que ela gravava na vitrola de casa ou pintar um desenho com giz de cera. Ela pintava meninas delicadas, fazia cabelinhos em degradê, segurando o giz levemente com aqueles dedos cansados, mas finos e alongados que só ela tem. O carinho e a paciência do traço de artista não eram de alguém aguardada por uma antessala tagarela, cheia de penteados, bobes e unhas por fazer.

São esses momentos e gestos menores que dizem tudo em silêncio. Mamãe hoje sofre uma pontinha de culpa, a famigerada culpa materna, por ter trabalhado muito e dispensado pouco tempo aos filhos. Mal sabe ela que os momentos que partilhou comigo tiveram a medida exata de tudo que é precioso: fugaz no contar das horas, mas eterno na memória e no coração.

Agora é nossa vez, Eric, de construir nossa história, de cultivar os momentos que irão te fortalecer e dignificar. Você, filho, prestes a completar 5 meses, já cavou fundo em mim um mundo novo. Já somos velhos conhecidos! Meus dedos já percorrem jeitosos todo seu corpinho, com a habilidade de quem trilha a mesma estradinha há anos. Já sei quando tem sono, quando está cansado, quando quer um afago quentinho e você também reconhece em mim a alegria, a exaustão, o medo, as macaquices e palhaçadas, as lágrimas. Serei eu a companheira do começo dessa sua jornada e espero passar esse bastão para as pessoas que te cativarem ao longo do seu caminho. Viverei com você todos os seus primeiros: as primeiras descobertas, a primeira palavra, o primeiro passo, a primeira decepção… todos eles serão também os meus primeiros. Vou rir e sofrer com você e por você. Torço para que você leve no peito as suas caixinhas de música, os momentos ternos e bons, os seus tesourinhos afetivos, para que você tenha para onde se voltar sempre que passar por uma dor que beire o insuportável. Você me remoça, me faz viver tudo de novo de um jeito que eu não conhecia, me faz querer viver mais para ver mais de você. Assim como você, sei muito pouco da vida, mas te apresentarei o que sei, o que tem valor para mim, para que você escolha e seja livre.

Uma vida boa, Eric!

O post original com esse texto está aqui. (Ele é um candidato ao Melhor post do Mundo, da Limetree!).

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2 respostas em “Memórias…

  1. Pingback: Encontro aberto: falando sobre memória com amigos | maesnamesa

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